Memória da Comunicação

Jornalismo Impresso

PEDRO DIVINO ROSA

GARIMPEIRO DE PALAVRAS, PERSONAGENS E HISTÓRIAS

Conheça a trajetória de Pedro Divino Rosa, o ‘Popó’, um dos mais icônicos repórteres policiais de Uberlândia.

Do trabalho como boia-fria ao destaque no jornalismo investigativo. É autor de livros sobre crimes históricos e heróis anônimos. 

Pedro Divino Rosa é natural de Goiânia, mas muito cedo mudou-se com a mãe e os seis irmãos para a pequena cidade de Estrela do Sul, no Triângulo Mineiro. Lá, terra rica em diamantes, passou a infância e a adolescência. Com simplicidade, mas muita determinação em buscar uma vida melhor.

Desde cedo, teve interesse pelo jornal impresso. Com pouco menos de 20 anos começou a escrever para periódicos da sua cidade, depois de lugares maiores. Tempos depois, transformou-se em garimpeiro de palavras, personagens e boas histórias, contadas por mais de 30 anos com tinta e papel.

Importância dos estudos

A infância foi marcada pela pobreza. A mãe, Dona Geralda Souza Dias, era viúva e se esforçava para alimentar, vestir e abrigar os sete filhos. Foram para a escola cedo, todos estudiosos. Também eram trabalhadores, logo passaram a ajudar em casa, fazendo tarefas possíveis para crianças e adolescentes.

Pedro começou como boia-fria em uma empresa agrícola, junto com um dos irmãos. Acordava de madrugada para passar o dia na lida das fazendas de uma empresa local. Depois conseguiu uma vaga no comércio e foi aprendiz no Banco do Brasil. Em paralelo, fazia bicos para ganhar um trocado. Foi em um deles que o jornal impresso cruzou seu caminho pela primeira vez.

Em Estrela do Sul, todos os dias o ônibus que vinha das cidades maiores trazia o jornal para os assinantes locais. A cidade era rica, tinha muito diamante. Pedro e os irmãos ganhavam um troco entregando os jornais. Aproveitavam para ler, antes da entrega ou depois que era descartado. As matérias, imagens e títulos chamavam atenção dos meninos. E despertavam o sonho de um dia virar jornalista.

Pedrinho Poeta

Valia tudo para ganhar um troco e Pedro, que sabia escrever e fazia isso muito bem, passou a ajudar os garimpeiros com cartas para a família. As pessoas ditavam, ele punha no papel e ganhava uma moeda ou outra. No final, escrevia versinhos, pequenos trechos que inventava na hora. Isso lhe rendeu o primeiro apelido: Pedrinho Poeta.

Saiu de Estrela do Sul no final da adolescência, depois de ser exonerado do Banco do Brasil. Foi tentar a sorte em Belo Horizonte, depois em Araguari. Lá, aprendeu a linotipar no jornal Ventania. Teve oportunidade, começou a escrever crônicas. Um dia, escreveu sobre um crime ocorrido em Estrela do Sul. Passou a assinar as matérias policiais. Foi assim que conseguiu emprego em um jornal um pouco maior, ainda em Araguari.

Apelido de redação: nasce Pedro Popó

Sua carreira começou graças a encontros aleatórios. O primeiro com o jornalista JB Coury, que assinava a coluna social no jornal O Estado de Minas, chamada Gente e Destaque. Foi convidado para enviar notinhas sobre os aconecimentos sociais de Estrela do Sul. Depois, com Inácio Muzi Fonseca, integrante da turma dos fundadores do jornal Primeira Hora. Ele prometeu um emprego e cumpriu o prometido. Chamou o jovem Pedro Divino Rosa para trabalhar naquele que se propunha a profissionalizar o jornalismo em Uberlândia. Era abril de 1981.

Foi na redação do Primeira Hora, na Avenida Rondon Pacheco, que nasceu Pedro Popó. O apelido foi colocado por um dos editores do jornal. Na época, com pouco mais de 20 anos, tinha cabelo longo, usava uma barbinha “blasé”, falava fino e grosso ao mesmo tempo. Em tudo lembrava o personagem Popó, criado pelo artista Chico Anysio para o programa Chico City, veiculado pela TV Globo, apelido de redação que ficou para sempre.

Escola de jornalismo

Ao lado de profissionais já formados e experientes, Pedro foi se transformando em jornalista. Aprendeu a apurar com Iracema Barbosa Marques, que o recebeu na rodoviária de Uberlândia, dirigindo o fusquinha que era usado como carro de reportagem do jornal. A linguagem jornalística aprendeu com Inácio Muzi, Antônio Furtado, Deca Furtado e Ivan Santos.

Entre os ensinamentos, foi apresentado ao trabalho do jornalista José Hamilton Ribeiro, da Revista Realidade,  autor de textos que o inspiraram ao longo da vida toda. Foi onde se descobriu “garimpeiro de palavras”.

Pedro Divino Rosa, agora Pedro Popó, cresceu no Primeira Hora. Assinou a reportagem de capa da primeira edição, sobre garimpeiros que tomaram conta de uma cidade goiana, próxima a Uberlândia. Cobriu grandes acontecimentos na cidade e região.

Depois de lá, passou pela assessoria de imprensa, voltou para o jornal, que acabou fechando. Foi contratado pelo O Triângulo, depois pelo Correio de Uberlândia, onde assumiu a editoria de segurança.

Equipe Pedro Popó de Jornalismo

O noticiário policial de Uberlândia encontrou em Pedro Popó um de seus expoentes. Ele atribui essa fama ao tempo que trabalhou na Rádio Cultura, quando formou a equipe Pedro Popó de Jornalismo, no Programa Balancê. Profissionais como Wallace Torres, Hugo Carrijo, Sirlene Rodrigues e Raquel Diniz foram colegas de trabalho. Ali, colocou em prática o que aprendeu no Primeira Hora, com pauta, distribuição dos repórteres, organização dos processos.

Foi também correspondente do jornal O Estado de Minas, para o qual fez coberturas importantes, de abrangência regional e estadual. São famosos os causos que ele conta, como o dia em que conseguiu entrevistar o mandante de um sequestro de grande repercussão; a ocasião em que pegou carona no helicóptero de uma grande emissora ao dizer que iria mostrar o caminho para a repórter; a matéria em que furou toda a imprensa local ao ouvir uma conversa de bastidor. Com seu jeito simples, com a capanga pendurada, conversa mineira e uma dose de malícia, foi autor de grandes reportagens.

“Meu conselho para os jovens: sejam garimpeiros de histórias e de personagens, mas contem essas histórias na perspectiva deles e não baseada na sua opinião.”

Livros

Além das páginas de jornal, Popó também é autor de livros. Tem seis títulos: alguns lançados, outros não. Escreveu a história de Dona Beja, cujo corpo foi enterrado em Estrela do Sul. Conseguiu falar com uma bisneta dela.

Transformou em livro a história de Orlando Sabino, conhecido como O Monstro de Capinópolis, um bandido que assustou o Triângulo na década de 1970. Chegou a conseguir uma entrevista com o próprio, mas ele já se encontrava bastante debilitado na ocasião e pouco falou. De toda forma, foi o último jornalista a estar cara a cara com Sabino, marco importante em sua biografia e que encerra o livro.

Escreveu a história de um combatente na Segunda Guerra Mundial que morava em Estrela. Personagens que, segundo ele, às vezes são garimpados, às vezes caem no colo.

Outros caminhos

No Correio, Popó ficou até 2006. Saiu para trabalhar fora da cidade, em uma empresa de energia. Quando voltou, não conseguiu mais emprego em jornal. As redações estavam ainda mais enxutas e o rádio havia mudado o perfil.

Resolveu estudar Direito, formou-se e trabalha hoje em um escritório onde começou como estagiário. Mantém uma forte conexão com Estrela do Sul, onde a mãe vive até hoje. Foi um dos fundadores da Casa de Cultura, ao lado dos irmãos. Tem planos para lançar mais alguns livros, entre eles, o do julgamento do ex-goleiro Bruno, que acompanhou de perto.

Família

Ainda jovem, Popó se casou em um bar conhecido em Uberlândia, algo bastante moderno para a época. A união segue firme até hoje. Teve dois filhos, um casal, ambos se formaram e hoje têm suas próprias trajetórias. A filha mora fora do Brasil, o que o leva a viajar com certa frequência para o exterior.

O hoje advogado Pedro Divino Rosa segue na escrita, garimpeiro de palavras, histórias e personagens, ainda inspirado pelo texto de José Hamilton Ribeiro, que chegou a conhecer pessoalmente, em sua vida de repórter, garimpeiro e contador de causos, como todo bom mineiro.

Confira a entrevista completa

Entrevista para o projeto Memória da Comunicação

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