Memória da Comunicação

Jornalismo Impresso

ILMA DE MORAES

JORNALISTA, PROFESSORA E APRENDIZ

Conheça a trajetória de Ilma de Moraes, a revisora e redatora que se tornou uma espécie de professora de jornalistas novatos nas redações de Uberlândia.

Da formação em Letras na PUC-SP à criação de manuais de redação no Correio, descubra como ela transformou o amor pelas palavras em uma carreira de rigor e dedicação.

Para Ilma de Moraes, jornalismo é a vida que borbulha em cada esquina da cidade. É ter amor aos fatos e à capacidade de transformá-los em palavras. De preferência, bem escritas, combinadas de acordo com as técnicas da informação ou da persuasão. Foi com a alegria de quem vibra com o jornalismo que passou boa parte de sua vida em redações. Foi revisora, redatora, chefe de redação, professora de jovens jornalistas, dona de jornal e revista, esposa, mãe, colega. E foi corajosa, muito corajosa.

Formada em Letras pela PUC de São Paulo, Ilma desde cedo demonstrou gosto pela escrita. Criança tímida, sem muitos amigos, ela encontrou nas palavras sua companhia. Quando chegou a hora de escolher a faculdade, depois de já ter trabalhado no comércio e em um banco, foi uma opção natural.

Ilma nasceu na capital paulista e cresceu em um bairro de classe média. Filha única de um cirurgião-dentista e de uma dona de casa. Passava muito tempo sozinha, em seu universo particular, onde gostava de ler e escrever. A escolha da faculdade, na época, foi influenciada por uma professora de português de quem gostava muito. Durante a faculdade, perdeu os pais, que faleceram com pouca diferença entre si. Primeiro o pai, depois a mãe. Recém-ingressada na vida adulta, viu-se sozinha pela primeira vez na vida.

Uberlândia

Com a perda dos pais, era hora de tomar suas próprias decisões e fazer escolhas. Começou a trabalhar como professora e foi morar com o namorado da época. Ele era de Uberlândia. Tiveram o primeiro filho e ele voltou para a cidade em busca de uma vida melhor. Tempos depois, Ilma também se mudou com o bebê no colo.

Em Uberlândia, tentou dar aula, mas as oportunidades locais eram poucas e mal remuneradas. Abriu e fechou negócios com o marido, investindo parte do patrimônio familiar. A porta para o universo da comunicação se abriu graças a ajuda de um parente, que a apresentou para o jornalista Marçal Costa. Na época, ele trabalhava tanto no jornal impresso quanto na ABC Propaganda, agência do grupo Algar.

A formação em Letras da PUC foi em parte voltada para o mundo da comunicação. Ilma havia aprendido a escrever para publicidade e jornalismo. Começou como redatora e revisora publicitária. Logo, estava escrevendo jornais corporativos produzidos naquela época para empresas do grupo Algar: escrevia, revisava, criava e dava personalidade aos conteúdos.

Uma curiosidade sobre essa época foi que, durante algum tempo, Ilma não revelou que era casada. As empresas do grupo Algar, tradicionalmente, não contratavam mulheres casadas e desligavam as que se casavam. Uma herança da época da empresa de telefonia que era o principal negócio do grupo, e só seria deixada de lado na década seguinte. Na medida em que se sentiu segura no ambiente profissional, Ilma contou a verdade para os colegas.

Jornal Correio

Tempos depois, surgiu uma oportunidade de cobrir férias de revisora no Jornal Correio. Ilma aceitou a proposta e passou a trabalhar na redação, que naquele tempo funcionava na Praça Clarimundo Carneiro, no coração de Uberlândia. A redação era um ambiente de muito trabalho, mas também de grande animação. O fato de estar no centro da cidade facilitava o dia a dia dos repórteres, que iam presencialmente fazer a cobertura dos fatos e depois voltavam para escrever.

Na medida em que aprendia e se desenvolvia no jornal, passou a escrever uma coluna feminina, com assuntos de interesse das mulheres. Ela pesquisava e escrevia, além de revisar os textos dos colegas. Naquela época, os processos ainda eram arcaicos, os textos eram revisados à mão, com marcações na lateral da página datilografada, em caneta vermelha. Depois de revistos, o redator datilografava novamente, passava pelo editor e fechava o material, que descia para os linotipistas. Em seu trabalho de revisora, era preciso ser meticulosa e observadora.

Tecnologias

Ilma passou pelas máquinas de linotipo, pelas máquinas de datilografar e pelos computadores. Ajudou a fazer jornal preto e branco, colorido e digital. Fez revisão na máquina de escrever, na tela do computador e nos tablets. Independente da evolução tecnológica, para ela o jornalismo segue sendo o amor pelo fato, a adrenalina da redação, o movimento que começava a partir das três da tarde, quando todo mundo voltava da rua e os textos começavam a pipocar em sua tela.

Quando saiu do Correio, foi trabalhar no jornal O Triângulo, onde ela acredita que aprendeu a fazer reportagem. Seu mestre foi o jornalista Alaor Barbosa, exigente ao extremo, mas que deixou lições importantes sobre apuração jornalística e redação.

“A gente nunca voltava sem uma matéria. Se fosse cobrir alguma pauta e não desse em nada, a gente conversava com as pessoas, entrava nas casas, cavava uma informação, nem que fosse sobre o tempo.”

Colegas de trabalho

Em sua jornada profissional, a jornalista tem lembranças de muitas pessoas que cruzaram seu caminho e foram importantes para o jornalismo local. O primeiro, que foi sua porta de entrada para o jornal Correio, foi Marçal Costa, com passagem pelos universos da propaganda e do impresso. 

Depois, trabalhou com Arly Trindade, que era diretor da gráfica Sabe e contribuiu para a profissionalização do jornal do grupo Algar. Na época, o negócio tinha como principal foco a impressão de listas telefônicas. A caracterização como empresa jornalística trazia alguns benefícios fiscais e de negociação.

”Ele não entendia nada de jornalismo, mas elevou o nome do Correio na cidade. Era uma pessoa muito popular, não era um intelectual que dirigia o jornal, mas uma pessoa que falava com a sociedade uberlandense”.

Reprodução. Acervo do Arquivo Público Municipal de Uberlândia

Outra colega bastante respeitada foi a jornalista Dolores Mendes, que durante algum tempo presidiu o Sindicato de Jornalistas e foi editora do jornal Tudo Já, uma experiência de jornalismo popular do Correio em parceria com a TV Integração.

Era um periódico bem popular, onde era possível fazer matérias sobre polícia, bairros e outros temas populares. Ilma admirava o dinamismo e a assertividade da colega ao defender o espaço daquela outra maneira de fazer jornalismo.

No dia a dia do O Triângulo, uma das companheiras de trabalho de Ilma foi a hoje vereadora Liza Prado, que na época era fotógrafa do jornal. Eventualmente, as duas saíam juntas para fazer matérias, a bordo de uma moto. Percorriam a cidade, uma para fazer entrevistas e levantar informações, outra para fotografar. Era um tempo de muito trabalho mas também de diversão para as equipes. 

Dona de jornal e revista

Ilma também trabalhou na revista Dystak’s, de Mauro Mendonça, onde fazia dupla com o jornalista Chico Lúcio. Sozinhos, os dois faziam quase todo o conteúdo. A experiência foi importante mais tarde, quando resolveu fundar sua própria revista, no período em que morou em Franca, interior de São Paulo. Ela criou a revista, vendeu anúncios, fez as matérias e imprimiu, em parceria com uma prima.

Ao voltar para Uberlândia, não conseguiu emprego. Com filhos pequenos para criar, resolveu fazer um jornal de bairro e vender anúncios. A publicação circulou durante um ano na região dos bairros Laranjeiras, São Jorge e Santa Luzia. Ilma criou o boneco, os textos, os blocos publicitários e começou a procurar os comerciantes locais, para vender anúncios.

Ganhou dinheiro, fez permuta, colocou os filhos para distribuir o jornal nos bairros. Com o tempo, o marido veio trabalhar com ela como vendedor de anúncios e o negócio prosperou. Ela fazia o conteúdo, tinha apoios para a diagramação e a gráfica. Ele fazia as vendas, as crianças distribuíam. O negócio dava para pagar as contas, mas Ilma acabou desistindo quando o marido arrumou um emprego e ela ficou sozinha para produzir o conteúdo e cuidar da parte comercial.

Família e redação

Entre idas e vindas, Ilma ficou 15 anos no Jornal Correio de Uberlândia, onde atuou principalmente como revisora. Assinou uma coluna sobre propaganda e publicidade. Numa época em que o Correio tinha um segundo jornal, chamado Tudo Já, manteve uma coluna com conteúdos sobre idosos, onde apurava e redigia as matérias.

Quando o Correio fechou, em 2016, Ilma estava lá. Embora tivesse sido desligada anteriormente, cobria férias da revisora e assistiu à despedida, entre colegas chorosos e alegres por terem formado uma família. Enquanto o jornal existiu, ela acredita que fizeram um bom trabalho.  Foi na redação do jornal que ela encontrou apoio para lidar com a doença e morte de uma das filhas. Apesar de toda a dor do momento vivido, seguiu no trabalho e mantinha a alegria e o bom humor.

No período em que recebeu o diagnóstico, teve também a notícia da sua efetivação no jornal. “Eu vivi, ao mesmo tempo, duas realidades. A alegria do meu trabalho, de cuidar dos meus meninos na redação e a dor da rotina de hospitais”.

Manual de redação

Como revisora, Ilma ajudou a criar os Manuais de Redação do Jornal Correio, algo bastante comum nos jornais de circulação nacional, mas inédito em Uberlândia. Junto com editores e colegas revisores, organizou as regras do texto jornalístico, criando padrões para números, cargos, normas de pontuação, entre outros. O Manual trazia as regras e explicava o porquê delas. Servia como um guia para quem começava a trabalhar no jornal. As ilustrações de capa, que ela guarda até hoje, eram do chargista Valtênio Spíndola.

Para os mais experientes, Ilma criou um curso de redação voltado para jornalistas, que combinava o ensino da técnica de redação e dos princípios do jornal. Todos tinham que passar pela formação, que chegou a ser reconhecida como boa prática entre as empresas do grupo Algar. Para ela, esse foi um dos melhores trabalhos profissionais dos tempos de Correio, com o qual contribuiu para formar muita gente que está no mercado até hoje.

Freelancers e educação

Fora dos meios de comunicação diários desde 2016, Ilma seguiu como redatora e revisora de publicações corporativas, algo que fazia desde os tempos de ABC Propaganda. Atualmente, escreve para jornais corporativos e revistas variadas. Trabalha também como revisora de livros, como os do jornalista Pedro Popó. A escrita e a revisão são parte de sua vida e a paixão pelo jornalismo sempre esteve presente. Há algum tempo, fez a revisão de uma história em quadrinhos, oportunidade em que pode aprender e desenvolver a curiosidade. 

Ilma é casada, tem três filhos e é auxiliar em uma escola municipal. Tem pós-graduação em educação, é curiosa e procura se manter estudando, com coragem para frequentar os bancos escolares ainda hoje, aos 68 anos. A formação em Letras a levou para a educação, onde chegou a criar um jornal com um grupo de crianças de uma escola onde trabalhou. Hoje, tem certeza de que o jornalismo foi sua melhor escolha. E lembra-se de quando Marçal Costa disse um dia que iria levá-la para o Correio. Ele disse: “você é jornalista. Você não sabe, mas você é!” 

Hoje, ela sabe. E a gente também.

Confira a entrevista completa

Entrevista para o projeto Memória da Comunicação

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