Memória da Comunicação

Jornalismo Impresso

CARLOS HUGUENEY BISNETO

ESCOLHIDO PELA COMUNICAÇÃO

Colunista social em três jornais, Hugueney Bisneto fez rádio, TV, revista e internet, em uma carreira de mais de 4 décadas

De modelo no Rio de Janeiro a mordomo da nobreza britânica, descubra como ele revolucionou o colunismo social em Uberlândia com autenticidade, polêmica e coragem editorial.

Há pessoas que escolhem uma profissão. Outras, são escolhidas por ela. Foi o que aconteceu com o jornalista Carlos Hugueney Bisneto. Nascido em Uberlândia, em 1961, seus primeiros passos profissionais seguiam rumo ao mundo colorido das passarelas e da televisão. Tempos depois, ele foi literalmente escolhido pelas páginas dos jornais e revistas, pelos programas de rádio e televisão. Há mais de 4 décadas, construiu uma sólida reputação de comunicador.

A família de Hugueney tem suas origens no Rio de Janeiro e no Mato Grosso. A mãe, Cleusa Guerreiro Hugueney, era bailarina e jornalista. Trabalhou no jornal Última Hora, de Samuel Wainer, na capital carioca. Era vizinha de mesa de Nelson Rodrigues. O pai era joalheiro. O jornalista nasceu em Uberlândia e tem uma irmã mais velha. Na infância, sua vida se dividia entre os estudos e o período de férias na fazenda dos avós, no Mato Grosso, ou no Rio.

Estudou no tradicional colégio Liceu de Uberlândia. Paralelamente, aprendeu pintura e balé clássico em tradicionais escolas da cidade. Ainda criança, participou de um desfile de moda e depois acabou tomando gosto pela atividade. Em Uberlândia, participava de desfiles e campanhas como modelo e manequim. Seu encanto com as passarelas nascia ali. 

Nasce o colunista

Com 19 anos, convenceu os pais de que precisava sair de casa para ter mais oportunidades profissionais. Foi para o Rio de Janeiro em 1979, onde contava com o apoio familiar. Estudou para se profissionalizar na área de moda e na carreira de ator. Desfilou com grandes nomes da década de 1980, como Xuxa e Luiza Brunet. Viveu seu auge como modelo em 1982. Ao mesmo tempo, fazia figuração em novelas e programas humorísticos, como Os Trapalhões. A carreira de ator não chegou a decolar, porque recusou-se a participar do “teste do sofá”.

Ainda no Rio, foi aprovado para o vestibular de Medicina e Psicologia, que prestou para agradar o pai e conseguir ficar mais algum tempo por lá. Nenhuma das duas foi adiante. Voltou para Uberlândia em 1984 e logo recebeu um convite para escrever a coluna social do jornal Primeira Hora, que havia sido lançado recentemente. Depois de alguns testes e muito aprendizado, assumiu a coluna, batizada como Hugueney Bisneto, sugerido como nome artístico por uma professora de teatro, ainda no Rio.

Em Uberlândia, sua família sempre foi muito bem acolhida e relacionada. Hugueney recebia muitos convites e sempre tinha novidades. A coluna caiu no gosto das pessoas. Naquela época, ele bebia na fonte dos grandes colunistas de sua época, como Ibraim Sued, Giba Um, Danuza Leão, Zózimo, Hildegard Angel. A coluna era um espaço feito para a elite local. As notas refletiam o que acontecia nos eventos locais, nas empresas, nas altas rodas da sociedade uberlandense.

Para atrair leitores de todas as idades, apostou em duas estratégias: a primeira foi “A Gata da Semana”, onde escolhia uma jovem para aparecer na coluna, um espaço disputadíssimo pelas moças de boa família. A outra iniciativa foi o uso de expressões marcantes, que eram quase como uma assinatura. Batizou a cidade de Dama do Cerrado e Uberville (usando uma denominação ou outra, dependendo do contexto). Era uma maneira de fortalecer a marca da cidade, uma estratégia de branding quando nem existia essa palavra. 

De Brasília para o mundo

Depois do Primeira Hora, passou pelo Correio e pelo O Triângulo, um pouco menor, mas onde conquistou bastante espaço. Era sempre apresentado às autoridades que passavam pela cidade, convidado para acontecimentos importantes. 

Foi também colunista do jornal O Estado de Minas, ocasião em que viajou por Minas Gerais e conheceu muita gente. Se era convidado, também desfilava. Na época, virou “o jornalista que desfila”. Mais que o observador dos eventos que cobria, muitas vezes foi protagonista nas passarelas. 

Uma vez, foi convidado para descer a rampa do Palácio do Planalto com o então Presidente Fernando Collor de Mello. Era o único jornalista do interior mineiro presente à cerimônia, que foi uma das marcas daquele governo. A emoção tomou conta. Aliás, essa é uma palavra presente em tudo o que o jornalista fala e faz.

Reconhecido pelo seu trabalho em Uberlândia, um episódio inusitado fez com que ele resolvesse largar tudo e se mudar para outro país. Um dia, em uma lanchonete, uma pessoa perguntou seu nome. Ele respondeu apenas o primeiro: Carlos. Ela disse que ele se parecia com o colunista Hugueney Bisneto.

“Eu ri e disse que era eu mesmo. Ela me acusou de mentiroso, de estar me passando por mim mesmo. O Hugueney estava matando o Carlos. Eu precisava mudar isso.”.

A perda da identidade o levou para a Inglaterra, onde chegou com dinheiro para morar alguns meses. Foi aperfeiçoar o inglês e começou a trabalhar como garçom, depois mordomo em casas da alta sociedade britânica. Foram 3 anos e meio vivendo situações que ele chama de inacreditáveis, como ter estado próximo à Princesa Diana durante um evento em que servia.

Multimídia

Brasil de novo. Coluna social de novo. Dessa vez, foi trabalhar no Correio de Uberlândia, onde assinava uma página que era disputadíssima pelos anunciantes. Com liberdade editorial, estilo e muita criatividade, rapidamente se tornou uma referência. Sua relação com executivos do Grupo Algar, dono do jornal, abriu portas para muitas oportunidades, inclusive a de fazer televisão, quando a empresa abriu um canal local em uma emissora de TV a cabo.

Hugueney e Nininha Rocha durante evento. Acervo do Arquivo Público Municipal de Uberlândia.

Em sua experiência, fazer coluna social nunca foi sinônimo de futilidade. Para o jornalista, sua página tinha uma dose de cada coisa, o que a tornava ainda mais atrativa para o leitor e para o anunciante. Falava de festas e negócios, política e cultura, pessoas bonitas e moda, economia e alta sociedade. Algumas vezes, com uma pontada de crítica, de humor, de ironia. Sempre com elegância e cultura. Para ele, a liberdade editorial era algo inegociável. 

Acreditava na coluna social como um espaço de elite e nunca aceitou publicar notas que considerava inadequadas. Na redação, havia um certo preconceito em relação à coluna social, mas ele sustentava sua posição com profissionalismo e com o retorno positivo de leitores e anunciantes. Isso rendia frases pejorativas, como “o Hugueney só trabalha com o filé mignon”. Ele se divertia e concordava. Era isso mesmo.

Faculdade

Na época do Rio, Hugueney abandonou a faculdade porque não queria um diploma apenas para realizar a vontade do pai. Nesse segundo retorno a Uberlândia, após a temporada londrina, escolheu fazer faculdade de jornalismo. O curso estava em sua segunda turma nas Faculdades Integradas do Triângulo (FIT), que posteriormente passou a se chamar Unitri. Era um bom aluno, mas eventualmente tumultuava um pouco as aulas, pois questionava os professores a partir do lugar de quem já frequentava redações há mais de 15 anos.

Sua coragem e liberdade editorial o levaram a sair do jornal diário. Foi demitido do Correio por causa de uma nota sobre um evento social, onde criticou o comportamento de pessoas da sociedade que surrupiavam enfeites de mesa em um casamento. O mesmo aconteceu quando trabalhou na TV e foi desligado por não ter papas na língua. Outra vez, quase foi processado por uma nota publicada, em que ao mesmo tempo atingiu produtores rurais, trabalhadores sem terra, defensores dos direitos humanos, com todos pedindo sua cabeça. Uma retratação resolveu.

Evolução tecnológica

Coragem e posicionamento marcaram a carreira do jornalista. Crescimento profissional também. Abraçou todas as oportunidades. Criou uma revista impressa, foi dono de uma produtora de vídeo, viajou, entrevistou ricos e poderosos, conquistou a dona de casa no rádio, na hora do almoço, sem jamais perder a classe e o bom senso. Hoje, engaja seu público na internet. Suas redes somam mais de 90 mil pessoas.

O jornalista presenciou também a evolução digital no jornal impresso. Quando começou a trabalhar, as redações tinham máquinas de escrever manuais. Depois, vieram as elétricas. No tempo do Correio, os primeiros computadores. Aprendeu e se adaptou a cada mudança.

Sua coluna, cuja paginação ele fazia questão de acompanhar, foi montada com tipos móveis e anos depois na tela do computador. Das antigas oficinas para fundir o chumbo, ele ele guarda lembranças das faíscas que furavam suas camisas – um contraste físico e nada glamuroso com o universo das coberturas sociais. 

Do rádio tradicional, gravado em estúdio, hoje aposta em podcasts, cujo canal no Instagram soma 74 mil seguidores. Esteve na tela da TV aberta e fechada, hoje seus conteúdos atraem audiência no YouTube. Suas histórias e lembranças preencheriam muitas páginas de jornal, roteiros de rádio ou páginas web. Tudo, no seu jeito de contar, tem sabor. Às vezes doce, às vezes pimenta. A comunicação o escolheu em determinado momento. Entre os que o odeiam e os que o amam, seu público fiel agradece.

Confira a entrevista completa

Entrevista para o projeto Memória da Comunicação

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