Memória da Comunicação

Jornalismo Impresso

MARGARETH CASTRO

JORNALISMO: BRINCADEIRA QUE VIROU PROFISSÃO

Margareth Castro é jornalista e tem sua atuação marcada pela transição entre o jornalismo impresso, as revistas e a assessoria de comunicação.

O relato percorre sua formação acadêmica, a experiência em redações como O Triângulo e Correio de Uberlândia, e seu papel na estruturação de novos projetos editoriais na região.

Margareth Castro nasceu em Paracatu, cidade histórica no noroeste de Minas Gerais. Na infância, acompanhou as mudanças na vida profissional do pai, que foi policial rodoviário, dono de uma oficina de retífica de motores, depois de uma loja de materiais elétricos e empreiteiro da Cemig. Quando se aposentou, tornou-se pastor. A mãe sempre cuidou da casa e dos cinco filhos. Também se tornou pastora mais tarde.

Ainda criança, era considerada uma “rata de biblioteca”. Estava sempre entre os livros, revistas e jornais. Com 8, 9 anos de idade, escrevia crônicas e poesias, algumas chegou a publicar no jornal da cidade, que era quinzenal. Seu pai alimentava o hábito, assinava revistas e comprava livros. Margareth lembra que esperava o carteiro chegar, abria as publicações e lia a última página antes de mais nada.

“Queria saber como terminava
para ver se valia a pena o começo”.

Quero ser Delis Ortiz

Desde pequena Margareth sabia que queria ser jornalista. Ela conta que em suas brincadeiras, costumava inventar histórias e cenários. Aos seis anos de idade, em cima de um pé de goiaba, improvisou um microfone e começou a narrar as brincadeiras dos amigos e a movimentação dos vizinhos. Quando desceu, falou para o pai, séria: “Quero ser a Delis Ortiz”. Seguiu firme em seu projeto, embora a televisão não tenha sido seu caminho profissional.

Para fazer faculdade, mudou-se para Uberlândia. A escolha da cidade foi obra do acaso. Os planos eram ir para Brasília, perto de Paracatu, ou Belo Horizonte. Mas uma estafa ao final do ensino médio mudou sua jornada. Veio para a cidade descansar, por recomendação médica. Um irmão já estava instalado aqui, preparando-se para o vestibular de Engenharia. O pai resolveu passear com ela por alguns dias.

Foi quando uma propaganda do curso de Jornalismo da Unitri despertou sua curiosidade. Resolveu fazer o vestibular, foi aprovada e ficou na cidade. O irmão passou em outro lugar e foi embora. Ela ficou sozinha e encarou o novo desafio. Voltou a Paracatu tempos depois, apenas para buscar o restante da mudança.

Faculdade

Com 17 anos e pela primeira vez vivendo longe da família, o tempo de faculdade foi de descobertas. A primeira delas foi aprender a pegar ônibus, coisa que não fazia em sua cidade. Ela foi para o ponto e via o coletivo passando, mas nenhum parava. Até que viu um senhor abanando a mão e percebeu que esse era o sinal para parada. Fez igual e conseguiu chegar na faculdade.

Margareth ingressou na segunda turma do curso de Jornalismo da FIT (Faculdades Integradas do Triângulo), que posteriormente se transformou em Unitri. A instituição funcionava na região central da cidade. Em sua sala, havia cerca de 50 alunos, alguns jovens como ela. Outros que já atuavam no mercado, como a jornalista Mônica Cunha, hoje apresentadora de TV.

O curso havia sido criado recentemente, não havia laboratórios ou estrutura, mas os professores eram bons e conseguiam inspirar e compartilhar conhecimentos. Ela se lembra em especial de Décio Bragança, professor de português, Aída Cruz e Bernardete Ribeiro, que ensinava telejornalismo sem ter uma câmara e um microfone.

Primeiro emprego

Em 1993, quando estava no último ano de faculdade, conseguiu uma vaga de repórter no jornal O Triângulo. Na época, não havia regulamentação do estágio, então ela teve a carteira assinada já como jornalista. Foram três meses de trabalho e muito aprendizado. A redação ficava no bairro Brasil e funcionava no mesmo prédio da gráfica. O jornal ainda era tipográfico. Lá, fazia parte da editoria de cidades. Os textos eram escritos em máquinas de escrever manuais. Só tinha uma elétrica na redação, disputada a tapa. 

O dia a dia de trabalho era acelerado e a relação dos novatos com a chefia era muitas vezes marcada por muito rigor. Margareth lembra de uma vez em que teve seu texto amassado e jogado no lixo pelo chefe de redação, jornalista Alaor Barbosa. Isso acontecia com certa frequência nas redações de antigamente. Era a chamada “cesta seção”.

“Ele jogou o texto fora, falou para eu voltar para a máquina de escrever e fazer um texto decente, que meu trabalho era melhor que aquilo. Fiquei assustada, mas fiz ‘o texto’. Foi a manchete do dia seguinte”.

Na época, tinha entre 19 e 20 anos. Hoje, enxerga essas broncas como fontes de aprendizado. No Triângulo, trabalhou também com Ademir Reis.

De volta a Paracatu

Com três meses do jornal, foi demitida devido a cortes do departamento financeiro. Terminou a faculdade, voltou para Paracatu, onde conseguiu emprego no rádio, na televisão e no jornal impresso. Sua primeira entrevista para TV foi com Chitãozinho e Xororó, no aeroporto da cidade. Embora estivesse bem, morando com os pais, sem despesas, sentia falta de Uberlândia e quis voltar. O pai disse que ela teria que conseguir um emprego primeiro Ela fez alguns contatos e voltou para O Triângulo. De novo, ficou três meses.

Depois, foi trabalhar em assessoria de imprensa e afastou-se do impresso até a próxima oportunidade. E ela veio no jornal Correio, que precisava de alguém para cobrir férias. Saiu-se bem e, quando o dono da vaga resolveu trabalhar em rádio, foi efetivada como repórter. Ficou dez anos no periódico, quatro deles como editora.

O Correio, na época, era considerado um grande jornal, com diferentes editorias, cerca de 30 profissionais, entre reportagem e redação, fotojornalismo, editores, paginadores. O parque gráfico era moderno e o ritmo acelerado. Na época, fazer reportagem era ir para a rua, entrevistar as pessoas em suas casas, empresas ou outros lugares. A rotina era dinâmica.

Foi na redação do Correio que ela viveu a gravidez dos dois filhos, trabalhando até perto de dar à luz. Coleciona histórias engraçadas desse tempo, como o dia que teve que ser guinchada por dois policiais do sofá da delegacia, pois sentou-se para esperar e afundou. Ou da bola que voou em sua direção em uma cobertura de futebol amador, onde foi “salva” pelo colega que se deitou sobre sua barriga enorme.

Margareth foi editora do Correio depois de brigar pela posição. Embora se sentisse qualificada, não tinha oportunidade. Até que uma equipe de consultores contratada pelo grupo Algar sugeriu ao editor-chefe que ela fosse promovida. Passou por testes no caderno de Esportes e Internacional, saiu-se bem. Acabou como editora coringa, cobrindo as férias de outros profissionais. Só depois, tornou-se editora de Cidades.

Brincar de casinha

Nos últimos anos de jornal, passou a orientar os estagiários, revisando seus textos e ajudando em seu aprimoramento profissional. Com isso, chegava ao jornal por volta das 13h, e às 16h começava o trabalho de edição. A redação era fechada, não tinha janelas ou espaço para ver se era dia ou noite lá fora. Foi quando ela decidiu abandonar o jornalismo. “Vou brincar de casinha e cuidar dos filhos”.

A decisão durou pouco tempo. Logo foi chamada para trabalhar em uma campanha política. Depois, veio assessoria de imprensa na Prefeitura de Uberlândia, durante a gestão Gilmar Machado. Em 2016, foi convidada para ajudar a criar o projeto editorial do Diário de Uberlândia, que buscou preencher a lacuna deixada pelo fechamento do Correio. O periódico mantém circulação impressa até os dias atuais. Ela formou a equipe, alinhou projeto gráfico, definiu linha editorial e deixou tudo pronto para que o impresso tivesse vida própria. Foi uma espécie de consultoria, que durou alguns meses.

Notas e Prosas

Além de atuar como repórter, editora e assessora de imprensa, Margareth também foi professora universitária. Trabalhou na Esamc Uberlândia por cinco anos. Criou um site, o Notas e Prosas, que nasceu no vácuo deixado pelo jornal Correio, com o objetivo de ser um site de notícias. Hoje, dedica pouco tempo a ele, mas continua no ar.

Atualmente, Margareth tem uma agência de comunicação e dá aulas de oratória e media training. São mais de três décadas de jornalismo, com muitas carreiras dentro de uma só. E muitas histórias que começaram a ser contadas pela menina na goiabeira e seguem escritas nos livros que pretende publicar um dia. 

Confira a entrevista completa

Entrevista para o projeto Memória da Comunicação

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