FOTOJORNALISMO É CONTAR HISTÓRIAS COM IMAGENS

Conheça a trajetória do fotojornalista Marlúcio Ferreira dos Santos. De goiano inspirado pelo Homem-Aranha a um dos principais nomes da fotografia documental, publicitária e política de Uberlândia.
Com mais de 40 anos de fotografia, trajetória inclui jornalismo, publicidade e política
Contar histórias por meio de imagens é o ofício de Marlúcio Ferreira dos Santos, fotojornalista que passou pela redação dos jornais Primeira Hora, O Triângulo e Correio de Uberlândia, entre as décadas de 1980 e 1990. Como freelancer, vendeu seu trabalho para publicações impressas locais, estaduais e nacionais, jornais e revistas. Montou seu próprio estúdio depois de muito planejamento e de migrar para a foto publicitária, onde se tornou uma referência. Ao longo da carreira, acompanhou muitas campanhas políticas e integrou a área de comunicação de diferentes gestões municipais.
A paixão pela fotografia surgiu na infância, a partir da leitura de gibis. Nasceu em 1962, na zona rural de Mossâmedes, no interior de Goiás. Seus pais, Geralda Maria de Jesus e Manuel Ferreira dos Santos, eram lavradores. Ainda menino, seu super-herói favorito era o Homem-Aranha, cuja identidade era a do fotógrafo Peter Parker. Em meio às histórias e à imaginação, sabia que não seria um herói, mas poderia vir a trabalhar com imagens.
Quando tinha cerca de oito anos, costumava brincar com papéis fotográficos no estúdio de uma casa vizinha. Ao perceber o interesse de Marlúcio, o fotógrafo resolveu lhe dar um brinquedo especial: um velho diafragma de máquina fotográfica, pendurado em uma cordinha. Passava o dia armando e disparando fotos imaginárias. E foi assim, brincando de fotografar, que cresceu e transformou a paixão em ofício.
Fotos da cidade
Quando tinha nove anos de idade, sua família se mudou para Uberlândia. Os pais foram para a cidade grande em busca de uma vida melhor, como tantas famílias brasileiras fizeram naquele final da década de 1960. Na cidade, foi para a escola, mas teve que repetir o que já havia estudado, porque seus documentos se perderam na mudança. Assim, era sempre mais velho que o restante da turma. Passou pelas escolas públicas Maria Conceição Barbosa, Joaquim Saraiva, Messias Pedreiro e Bueno Brandão.
Enquanto a fotografia era um brinquedo para a criança, para o adolescente se tornou um passatempo. Por volta dos 16 anos, já andava com uma máquina de verdade pendurada no pescoço, presente da mãe, e registrava o cotidiano. Começou a trabalhar aos 16, como empacotador das Lojas Pernambucanas, na região central de Uberlândia. Era final da década de 1970. Entre uma entrega e outra, no caminho entre a casa e o trabalho, entre a casa e a escola, Marlúcio fotografava as ruas, os prédios, as pessoas e a cidade.
Naquela mesma época, fez um curso de vendas e aprendeu técnicas para oferecer suas fotos e ganhar algum dinheiro com elas. As primeiras imagens foram vendidas para os formandos do próprio curso. Para aprender a fotografar, recorria aos livros, à observação dos profissionais mais experientes e à prática cotidiana. Chegou a bater nas portas dos estúdios da cidade, buscando se desenvolver ainda mais, mas elas não se abriram.
Incêndio
Enquanto criava seus registros urbanos, a intuição do fotojornalista florescia. Até o dia em que um prédio na região central pegou fogo, o famoso Edifício Tubal Vilela. Sem pensar duas vezes, abandonou o posto na loja e correu para fotografar a cena, no calor – literalmente – dos acontecimentos. Registrou o trabalho dos bombeiros, o prédio queimado, as pessoas observando. Levou as imagens para um estúdio de revelação de um amigo e foi bater na porta dos jornais para vender suas fotos. No Correio, recebeu uma resposta negativa: o jornal não publicava aquele tipo de matéria. No Triângulo, outra porta fechada, mas o editor, que na época era Alberto Gomide, disse que, se ele tivesse fotos de esporte, teria interesse em comprar.
No fim de semana seguinte, foi para o estádio Juca Ribeiro fazer fotos do Uberlândia Esporte Clube. O jornal comprou e continuou comprando depois. De vez em quando, recebia um pedido para fazer uma foto específica. Essas histórias aconteceram no final da década de 1970, início de 1980, quando os jornais locais eram tipográficos e utilizavam clichês. A fotografia era muito cara para se imprimir e a demanda era baixa.
Ao completar 18 anos, por volta de 1980, alistou-se para o serviço militar. Foi enviado para a Polícia do Exército em Brasília e se mudou de mala, cuia e máquina fotográfica na mão. Nas horas vagas, registrava o dia a dia do quartel e fazia fotos dos colegas de turma. Depois, vendia essas imagens para os próprios soldados, que queriam enviar para as famílias.
No dia de receber o soldo, formavam-se duas filas em salas vizinhas do quartel. Em uma delas, os soldados recebiam seu dinheiro. Na outra, começavam a gastar para pagar as fotos compradas. A situação rendeu uma bronca dos superiores e um conselho para evitar as aglomerações. Apesar disso, o trabalho era bem visto no quartel. As vendas ajudaram a fazer um pé de meia que usou para comprar equipamentos melhores.
Primeira Hora
Depois de cumprir a obrigação militar, voltou para Uberlândia e para o atendimento aos jornais locais. Fazia cobertura de esporte, dos acontecimentos na Câmara Municipal, da Prefeitura e do que acontecia nos bairros. Em uma campanha para a prefeitura, acompanhou um dos candidatos, chamado Alceu Santos, e começou a tomar gosto pela política. Era 1981 e a cidade vivia a efervescência da chegada de um novo jornal, o Primeira Hora.
Marlúcio foi contratado como fotógrafo do periódico, com carteira assinada. O jornal era impresso em offset e as fotografias eram valorizadas, estampavam a capa e davam destaque ao trabalho profissional. Para ele, foi ali que nasceu o fotojornalista, no cotidiano da redação. Algumas de suas fotos, de momentos marcantes na história da cidade, passaram a ser vendidas para jornais e revistas de fora.
O trabalho como freelancer aumentou e ficou difícil conciliar com o emprego fixo. O jeito foi pedir demissão do jornal para atender diferentes clientes. Em sua opinião, o Primeira Hora transformou o jornalismo local, principalmente pela mudança de mentalidade sobre fazer jornalismo no interior. As novas ideias aproximaram a imprensa uberlandense do que se praticava em centros maiores.
Regime militar
Durante 12 anos, trabalhou exclusivamente como fotojornalista. Pegou a fase final do regime militar, quando ainda havia forte vigilância sobre o trabalho da imprensa.
“Uma vez, houve uma invasão de torcedores no campo de futebol. A polícia entrou armada para conter os invasores. Nisso, um dos jogadores resolveu usar o próprio corpo como escudo para proteger um jovem. Com uma das mãos, protegeu o rapaz. Com a outra, fez sinal de pare no rumo do policial, que vinha correndo, com a mão no coldre para tirar o revólver. Eu disparei a máquina e congelei essa cena, que era por si só muito ameaçadora”.
A imagem foi publicada e teve repercussão na cidade e região.”
Nas redações, conviveu com profissionais como J. B. Coury, do Estado de Minas, Antônio Furtado, do Primeira Hora, e muitos outros que contribuíram para aperfeiçoar seu olhar jornalístico. Muitas vezes, ele saía com a pauta do jornal. Outras, via o que acontecia na cidade e registrava. Foi o que aconteceu na famosa enchente que destruiu a avenida Rondon Pacheco, na década de 1980. Esperou amanhecer o dia e antes que os destroços começassem a ser limpos, correu a avenida fotografando as cenas da destruição. Mais uma vez, seu trabalho ganhou destaque nacional.
Não pode? Aí é que eu vou.
Fotógrafo questionador, muitas vezes comprou briga com editores para publicar fotografias mais críticas, que denunciavam problemas sociais. Fotografou favelas, rebeliões em cadeia, cenas do cotidiano dos bairros. Sentia-se desafiado ao ouvir um “não pode” quando estava pautado para fazer determinada imagem. Aí é que queria mesmo registrar.
“O fotojornalista que aceita um ‘não pode’ é melhor mudar de profissão”.
Uma vez, durante uma rebelião na cadeia, driblou toda a vigilância, se pendurou num lugar alto e fez as fotos da cena toda. “Quando disseram que não podia, eu já tinha as imagens para a matéria”.
Correr riscos é outra característica da profissão que Marlúcio abraçou. Como repórter fotográfico, correu risco de levar tiro, de se machucar, de comprar uma briga com os editores. Sempre achou uma maneira de fazer e de publicar suas imagens. Acredita que foi um privilegiado na profissão.
Publicidade
Em meados de 1987, passou a fazer foto publicitária. A cidade tinha muitas empresas e agências de propaganda que demandavam serviços profissionais e ele soube aproveitar a onda, tornando-se uma das referências locais.
Na maior parte de sua carreira, foi autodidata, aprendeu com os livros e com o trabalho de fotógrafos renomados, como Henri Cartier-Bresson e Ansel Adams. Também teve aulas e desenvolveu pesquisas com o professor George Thomaz, da Universidade Federal de Uberlândia, que oferecia a disciplina de fotografia no curso de Artes. Foram quase 15 anos de convivência, que permitiram aperfeiçoar ainda mais seu trabalho e enxergar a fotografia como arte.
Marlúcio participou – e venceu – muitos concursos de fotografia, no Brasil e no exterior, a partir dessas experimentações. Algumas de suas imagens foram publicadas em livros que exibe com orgulho. Em 1996 abriu seu estúdio, fruto de anos de planejamento e investimentos pessoais.
Formando talentos
Como em seu começo de carreira teve muitas portas fechadas, resolveu fazer o contrário quando se tornou um profissional respeitado: passou a orientar colegas mais jovens. Fez isso com Manoel Serafim, que começou como motorista no jornal Primeira Hora e depois se tornou um fotojornalista reconhecido.
Uma das lições que se lembra de ter repassado ao colega, foi a de se impor no espaço público.
“Você chega e finca a bandeira: estou aqui para fazer meu trabalho de fotojornalista”.
Para Marlúcio, o profissional de imprensa muitas vezes era tolerado, mas não era aceito pela sociedade local. O jornalismo profissional historicamente teve o papel de incomodar, contar as histórias que os poderosos preferiam que não fossem contadas.
Outro pupilo foi Beto Oliveira, que começou ainda adolescente a ajudar nas tarefas do estúdio e passou pelo fotojornalismo e fotografia publicitária. Os dois seguiram trabalhando juntos ao longo da carreira.
Salto tecnológico para a Lua
Desde o diafragma quebrado que ganhou na infância até a geração de imagens com inteligência artificial, Marlúcio conheceu e trabalhou com diferentes tecnologias na área da fotografia. Fotografou com câmeras analógicas, que utilizavam filmes. Em seu estúdio, revelava e ampliava as imagens. No início dos anos 2000, começou a fazer fotos digitais e já se considerava preparado para a revolução que viria a partir dali.
Quando trabalhava como freelancer para vários jornais, era comum fazer as fotos, voltar o filme, tirá-lo da máquina com segurança e ir para o aeroporto, onde pedia para um passageiro levar as fotos em vôos que partiam para São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte. Uma vez que conseguia alguém que concordasse, ligava para o jornal, avisava qual era o voo, como a pessoa se chamava, como estava vestida e o office boy ia até o aeroporto para pegar as imagens com o passageiro. Na década de 1990, veio o telefoto e as imagens digitais, que na pré-história da internet demoravam horas para serem transmitidas. Atualmente, basta um clique.
A evolução tecnológica também acompanhou a relação entre o fotógrafo e a redação. Houve um tempo em que era preciso procurar um telefone público, os antigos orelhões, e ligar para saber se havia alguma pauta. Depois, com a invenção do BIP e do Pager, passou a adotar a tecnologia para agilizar seu contato com os vários clientes. O celular foi a grande revolução, pois o contato com a redação passou a ser em tempo real.
Quando olha para trás, avalia que houve um salto tecnológico da Terra à Lua. Ao longo dos últimos 40 anos, presenciou todas as mudanças e sempre esteve preparado para elas, em busca dos melhores equipamentos e recursos para entregar o melhor trabalho, fosse para um jornal ou para um cliente da propaganda ou política.
Mas nada, nem os recursos tecnológicos mais avançados substituem o olhar e o conhecimento do fotógrafo. Para ele, o que faz um bom profissional é enxergar o que os outros não conseguem ver, entender o contexto, contar uma história inteira com um único clique. A boa foto de jornal não precisa ser explicada.
Marketing político
Por causa da publicidade, passou a ser chamado para campanhas políticas e se aproximou de marketeiros locais, que começaram a contratá-lo para acompanhar candidatos em campanha. Posteriormente, passou a prestar serviços de fotografia na prefeitura.
Em casa, o fotógrafo tem um acervo de cromos e imagens que registram parte da história de Uberlândia nas últimas quatro décadas. Ainda tem a vontade de expor esse trabalho, mas aguarda o momento certo. Como trabalhou para políticos de diferentes grupos com influência na cidade, acredita que é preciso ter cautela.
Casado, Marlúcio tem quatro filhos, uma da primeira união, dois enteados e uma filha do segundo casamento. Ao longo da carreira, sempre procurou preservar a família.
A fotografia levou Marlúcio Ferreira para muitos mundos, um trabalho sem rotina, que permitiu desde registros banais – como a imagem de um cachorrinho andando na sombra de um guarda-chuva depois de causar um rebuliço na hora da vacina – até flagrantes históricos – como a cidade devastada pela força das águas de uma enchente. Uma vida boa, misturada aos registros da vida de uma cidade.