Memória da Comunicação

Jornalismo Impresso

IVAN SANTOS

O JORNALISTA COMUNISTA QUE FEZ HISTÓRIA NAS REDAÇÕES UBERLANDENSES

Resumo: Este perfil apresenta a trajetória do jornalista Ivan Santos, integrando o registro histórico da imprensa em Uberlândia. O texto acompanha o percurso profissional do entrevistado, desde sua formação e experiências em redações no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, até a consolidação de sua carreira no Triângulo Mineiro a partir da década de 1970. O relato aborda o cotidiano do jornalismo impresso local, as rotinas de redação e os desafios enfrentados pela profissão na região.

Ivan Santos nasceu em Mar Vermelho, interior de Alagoas. Ainda jovem,  ingressou no  Arquiepiscopal Seminário de Mariana, onde fez seminário e cursou Filosofia. Sem vocação para se tornar padre, deixou o colégio e pegou um trem rumo ao Rio de Janeiro. Arrumou emprego em uma padaria, onde todos os dias lia o jornal Diário Carioca.

Um dia, viu um anúncio pedindo revisor para o periódico. Candidatou-se e acabou ficando com a vaga depois que outros candidatos desistiram. O salário era ruim, mas já era alguma coisa. No início da década de 1950, Ivan Santos começava sua carreira como jornalista. Foi revisor por dois anos e depois conquistou uma vaga de repórter. Seu chefe na época era o jornalista Pompeu de Souza, conhecido por introduzir o lead na imprensa brasileira.

Sua escola de jornalismo foi a prática das ruas e redações. Aprendeu com os profissionais do seu tempo as regras relacionadas à apuração e a escrita, que compartilhou com as novas gerações ao longo da carreira. Naquele tempo, cursos de técnicas jornalísticas faziam parte das rotinas das redações, eram oferecidos pelos sindicatos e pelas associações. Os próprios profissionais se educavam.

No Rio, teve contato com o Partido Comunista e conta que assistiu aulas de marxismo ministradas por Luiz Carlos Prestes. Participou de reuniões com personalidades como Jorge Amado e Graciliano Ramos. “Naquele tempo, todos nós queríamos ser o Che Guevara, mas isso era coisa de juventude”, recorda Ivan Santos.

Depois do Rio de Janeiro, morou no Rio Grande do Sul, como correspondente do Diário Carioca. Lá se casou e teve a primeira filha. Com a vida estabelecida, não quis mudar de cidade quando o jornal ordenou que voltasse. Ficou sem emprego e foi trabalhar em uma prefeitura gaúcha, graças à ajuda de um amigo.

Estadão e Triângulo Mineiro

Depois de ficar viúvo, foi para São Paulo e conseguiu emprego no tradicional Estadão. Foi lá que teve início o vínculo com o Triângulo Mineiro. Na década de 1970, ele aceitou o desafio de mudar-se para Uberaba a fim de acompanhar a transformação do cerrado mineiro em área própria para a agricultura. O ano era 1973 e teve início o Projeto Polo Centro de Colonização do Cerrado. Em pouco tempo, percebeu que Uberlândia era a cidade onde os fatos aconteciam e se mudou por conta própria. “Expliquei para o jornal que era lá que tudo acontecia, em Uberaba só tinha o gado Zebu”, disse. 

Um ou dois anos depois, o Estadão o chamou de volta. Era São Paulo ou Brasília. Ivan Santos se recusou a sair de Uberlândia e foi trabalhar como vendedor. Na época, a cidade tinha três jornais: A Tribuna, O Triângulo e O Correio. Em 1975 foi contratado pelo Triângulo, para trabalhar como redator. O jornal era pequeno, administrado por antigos funcionários que haviam recebido o periódico como indenização trabalhista. Fazia-se um jornalismo mais parecido com uma grande coluna social: aniversários, casamentos, festas.

Incidente tipográfico

No Triângulo, um incidente na tipografia fez com que ele fosse chamado pela polícia para responder por um título publicado no jornal. Em pleno regime militar, o tipógrafo embaralhou as letras na hora da composição e trocou a palavra preparatório por predatório. O título publicado irritou os militares: Escola Predatória das Agulhas Negras. Durante seis meses, o jornalista teve que prestar depoimento na polícia. O tipógrafo também foi ouvido e por mais que houvesse justificativa, ambos tinham que se apresentar.

Passado o regime militar, Ivan Santos propôs aos donos do Triângulo que o jornal fizesse a cobertura das sessões da Câmara Municipal, com o acompanhamento dos temas que interessavam à população. Um dia, um vereador proibiu que ele entrasse no prédio, chamado Palácio dos Leões, por causa de seus textos críticos. Ele ligou para o colega  Orlei Moreira, na época editor na TV Triângulo (atual Integração) e pediu cobertura porque iria tentar entrar no prédio mesmo estando proibido. Foi um alvoroço. Conseguiu entrar, mas os vereadores optaram por ficar em silêncio. Vem dessa época a fama de ser um “jornalista comunista”, forma como era chamado por algumas pessoas da elite local.

Tancredo Neves

Por volta da década de 1980, voltou a trabalhar para o Estadão como correspondente. Nessa condição, acompanhou Tancredo Neves em viagens por Minas Gerais na época que ele concorreu ao governo do Estado. A princípio, seu trabalho era cobrir a campanha no chamado Triângulo Norte. Posteriormente, a pedido do próprio candidato, Ivan passou a acompanhar a comitiva em todo o Estado de Minas.

Ivan conta que, um dia, foi chamado ao Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, para uma conversa reservada com Tancredo. O governador disse que não acreditava que os militares convocariam uma eleição indireta para a Presidência da República. Aquela história vinha sendo comentada, mas até o momento, não havia um posicionamento concreto. Terminado o encontro, Ivan ligou para a redação e passou as informações. Seu editor avisou: Tancredo está te usando, tem certeza que quer publicar essa matéria? Ele respondeu que sim.

No dia seguinte, os militares negaram tudo o que Tancredo havia dito. O próprio governador negou ter dito aquilo para o repórter, que era um rapaz do interior, jornalista novato. Meses depois foi convocada a eleição indireta e Tancredo foi escolhido pelo Colégio Eleitoral. Para o jornalista, esse episódio mostrou como um repórter pode ser usado por uma fonte e não se dar conta.

Anos depois, Ivan recebeu uma ligação do Palácio da Liberdade, informando que seu nome havia sido indicado para receber a Medalha da Inconfidência, maior honraria do governo mineiro. Participou da cerimônia e quis saber quem havia feito tal indicação. No livro, constava a lista dos autores da outorga. No caso dele, havia sido o próprio Tancredo Neves.

Primeira Hora

Entre um emprego e outro, foi tomar uma cerveja com amigos e acabou contratado para trabalhar no jornal Primeira Hora, que seria aberto na cidade. No bar, ouviu dois homens conversando sobre um jornal. Apresentou-se como jornalista. Foi contratado ali mesmo, para contribuir com a formação dos jovens jornalistas que viriam a compor o novo periódico.

Além de contribuir com os mais jovens, Ivan Santos assinava uma coluna de política, chamada Confidencial. Eram notas curtas sobre os bastidores dos poderes Executivo e Legislativo, apuradas com critério. Ivan considera o jornal como a primeira experiência de jornalismo profissional da cidade, com apuração rigorosa dos fatos, texto estruturado de forma técnica, editorias etc. Foi também o primeiro em offset, o que revolucionou a imprensa local e levou o jornal Correio a buscar se modernizar.

Com o fim do Primeira Hora, Ivan Santos foi para o jornal Correio, a convite de Tão Gomes Pinto, na época trazido de São Paulo pelo grupo Algar, para fazer a profissionalização do periódico. Anteriormente, nunca foi convidado para trabalhar por causa da fama de comunista. Um dia, foi chmado para conversar pelo dono do jornal, que perguntou se ele era comunista mesmo. Ele disse que deeveria ser, porque todos na cidade falavam isso. Conteou das aulas com Prestes e das reuniões do Partido no Rio de Janeiro. “Nos temos da juventude, todos nós éramos comunistas”, lembrou.

No Correio, foi repórter, editor de opinião e colunista. Ficou no jornal até seu fechamento, em 2016. Levou para lá a coluna Confidencial, publicada até a última edição do jornal.

Bom dia Triângulo

Entre idas e vindas no jornalismo impresso, Ivan Santos foi um dos criadores do Bom Dia Triângulo, primeiro telejornal local da Rede Globo no interior de Minas. Ele foi convidado por Orlei Moreira. Sem experiência em televisão, lembra que foi para Brasília e Rio de Janeiro. Conheceu Alice Maria, a toda poderosa do jornalismo global, que ele considerou uma das mulheres mais inteligentes do jornalismo brasileiro. Com ela, aprendeu lições fundamentais sobre fazer jornal para TV.

Incomodado com as relações entre a imprensa e a  elite local, Ivan Santos lembra de um quadro que tinha na TV onde o repórter ia tomar café na casa de alguém importante da cidade. Um dia, ele foi para a entrevista e o convidado adiou, pediu mais uma semana. Quando chegou o dia marcado, a casa havia sido redecorada. Diante do exagero, na semana seguinte mandou o repórter tomar café com uma família de pessoas faveladas. O café foi servido em uma lata de massa de tomate. A matéria foi ao ar e quase custou o emprego na TV. 

Teve ainda a vez que trocou o horóscopo do jornal impresso para fazer uma brincadeira com o dono da emissora de televisão, que era supersticioso. Quase custou o emprego outra vez. 

Assessoria de imprensa

Embora não gostasse, Ivan Santos foi assessor de imprensa da Câmara Municipal de Uberlândia, onde criou a área de imprensa. Atuou também na Associação Comercial e Industrial de Uberlândia. É autor do livro Texto, Contexto e Entrelinhas, lançado pela Editora Assis em 2019. Com o final do Correio, manteve um blog durante algum tempo. Aposentado, continua atento à política local e escreve para o blog Uberlândia Hoje.

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