Memória da Comunicação

Jornalismo Impresso

ALBERTO GOMIDE

O JORNAL É A HISTÓRIA GRAVADA

“Este perfil retrata parte da trajetória de Alberto Gomide, que trabalhou e foi proprietário do jornal O Triângulo. O texto percorre sua formação prática — da tipografia à gestão editorial — e reflete sobre o papel da imprensa local na preservação da memória da região, abordando os desafios técnicos e as mudanças no setor ao longo das décadas. Ainda hoje, ele escreve para o Diário de Uberlândia.

Alberto Gomide nasceu em 24 de abril de 1942, na cidade de Canápolis, no Triângulo Mineiro. Seus pais, que eram pequenos agricultores, se mudaram para Uberlândia em busca de uma vida melhor para os nove filhos, que teriam mais acesso à educação e ao trabalho.

 Quando tinha 14 anos, conseguiu seu primeiro emprego em um jornal, com a ajuda do advogado Oscar Virgílio Pereira, que na época trabalhava na imprensa local.

Carteira assinada 

Em 1º de julho de 1956 teve a carteira assinada no periódico O Triângulo, que havia sido lançado em fevereiro do mesmo ano. No início, fazia limpeza, ajudava na oficina e na redação. Com o tempo, aprendeu um pouco de cada processo de fazer jornal, inclusive a operar a linotipo, máquina usada para a composição manual. “A gente fazia o jornal como na era de Gutenberg. Eram três edições semanais, às terças, quintas e sábados. Diário, ninguém conseguia fazer”, contou em entrevista.

Alberto trabalhou em todas as atividades, passando pela oficina, redação, comercial e distribuição. Aprendeu a fazer jornal com os recursos de que dispunham na época, que eram considerados avançados naquela década de 1960. Foi contemporâneo de Licydio Paes, que fundou o jornal O Repórter (1933-1966).  “Foi o grande nome do jornalismo de sua época, trabalhou enquanto teve forças para escrever e era um modelo para a imprensa local”. Conviveu também com homens como Sérgio Martinelli e Luiz Fernando Quirino.

De empregado a dono de jornal 

Já experiente, assumiu a direção do Triângulo ao lado de quatro companheiros de trabalho: Eli Fidélis, Alberto Augusto de Oliveira, Valteir Pereira da Rocha e Itamar Fernandes. O antigo dono era Renato de Freitas, que também possuía uma emissora de rádio. Quando foi candidato a prefeito de Uberlândia, afastou-se dos veículos de comunicação e ofereceu o periódico aos colaboradores, como forma de indenização trabalhista.

Com muito conhecimento sobre como fazer um jornal, os cinco conduziram O Triângulo durante vários anos. Alberto escrevia, cuidava da gráfica, do comercial e do que mais fosse necessário. Sua história e a do jornal se confundem até depois dele deixar de circular. Durante alguns anos, foi dono do acervo e da marca, história sobre a qual prefere não dar detalhes.

A cidade não tinha faculdade e o aprendizado acontecia na prática das ruas e também em cursos que eram oferecidos pelo Sindicato dos Jornalistas e pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Como muitos profissionais de sua época, Alberto tinha o registro de jornalista provisionado.

Enquanto enfrentava o dia a dia de administrar O Triângulo, Alberto fez faculdade de Direito, já imaginando que não poderia limitar seu conhecimento a uma única área. Chegou a advogar,  mas preferiu se dedicar à empresa. Os cinco seguiam fazendo de tudo, inclusive entregar o jornal, vender e receber a verba dos anúncios, apurar, escrever e tocar a gráfica. A família também se envolvia. Os filhos de um dos sócios trabalharam muitos anos como linotipistas e só saíram para fazer faculdade.

Sustentabilidade financeira 

O maior desafio, segundo ele, estava na sustentação financeira. O jornal saía às terças, quintas e sábados. Para manter a oficina e a redação, era preciso ter recursos que vinham principalmente dos anúncios. Fazer jornal no interior não era a mesma coisa que nas capitais,. Além das dificuldades financeiras, havia também a recusa do leitor e do anunciante em relação a alguns formatos, como os que adotavam a linha “espreme que sai sangue”.

Com o tempo, os jornais que existiam na cidade se modernizaram e O Triângulo não poderia ficar para trás. Foram feitos os investimentos necessários para mudar do linotipo para a composição eletrônica. Tentavam acompanhar o concorrente – jornal Correio – mas não conseguiram e resolveram passar o negócio para a frente. “A cidade tinha espaço para dois jornais, mas não tínhamos capacidade de investimento”, comparou.

O Triângulo foi adquirido por um grupo de empresários. Alberto e os demais sócios continuaram tocando o dia a dia e receberam algumas ações. Depois de um tempo, houve uma nova venda, dessa vez para o Jornal de Uberaba. Nessa época, já havia se afastado definitivamente. Como alguém que ajudou a construir O Triângulo nas últimas décadas, vivenciou com certo pesar a necessidade de transição para novos modelos de gestão. Ali se encerrava um ciclo pessoal que se misturou à própria história do jornal e da cidade.

O Correio e Futel

Depois do Triângulo, trabalhou no Correio de Uberlândia, onde ficou até a última edição, em 2016. Para ele, o fechamento dos jornais locais representou a perda dos registros da história da cidade. “O jornal é a história gravada. O acervo do Triângulo tem registradas histórias como a do ‘Monstro de Capinópolis’, do ‘João Relojoeiro’, das empresas que chegaram e contribuíram para o desenvolvimento urbano.” 

Atualmente, Alberto Gomide trabalha na área de comunicação da Fundação Esporte e Turismo de Uberlândia (Futel). Ele ainda escreve para o jornal Diário de Uberlândia, último em circulação. Faz notas sobre esporte e campeonatos amadores da cidade. 

Ainda hoje, uma das coisas que mais valoriza no jornalismo é a proximidade com o leitor, que procurou manter ao longo de toda a carreira. Para ele, jornalismo não é apenas o registro dos fatos, mas a construção de um laço de amizade com o leitor, uma troca que ele considera seu maior prêmio e sua grande riqueza. Isso se reflete principalmente nos comentários sobre seus textos de cobertura do esporte amador, uma das marcas editoriais do Triângulo e que ele mantém ainda hoje.

Palavras-Chave Principais: Jornalismo impresso, Uberlândia, Alberto Gomide, Memória do jornalismo.

Palavras-Chave Secundárias: História da imprensa em Minas Gerais, Imprensa regional, Jornal O Triângulo, Pesquisa em comunicação.

Cauda Longa: “Trajetória de Alberto Gomide jornalista”, “História do jornalismo impresso no Triângulo Mineiro”, “Profissionais da imprensa em Uberlândia”.

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